Na última sexta feira (08), a Paper Magazine publicou uma nova entrevista com Katy Perry, intitulada “Katy Perry: Fora da Caixa”. Em tom intimista, a cantora falou à revista sobre sua carreira, experiências de vida e o amadurecimento que tem percebido em si mesma depois que chegou na casa dos 30, entre vários outros assuntos.

Confira a entrevista traduzida na íntegra:

Katy Perry está pensando em fazer faculdade. A cantora, que está dando um tempo tanto de fazer álbum, quanto de sair em turnê esse ano, está considerando uma incursão na vida escolar. Ela até mesmo consultou uma faculdade em Oxford para alunos maduros. “Muita gente que já obteve sucesso em suas carreiras aos 45 anos de idade vai e estavam, tipo: ‘Bem, que porra eu faço agora?’. Aquilo foi interessante, porque seria muito Harry Porter pra mim”, diz ela. Katy conta que ainda ama música, mas a parte da turnê – pela qual ela ficou conhecida por fazer continuamente durante cerca de dois anos – realmente “[me] cansa”.

Imaginando as aulas que frequentaria um dia, ela lista: “Antropologia, Astronomia, Egiptologia, Estudos Religiosos Comparativos” e continua: “Eu gosto da história das coisas. Eu gosto da capacidade de contar histórias de maneira relevante. Eu gosto de estudos filosóficos e estudos místicos. Eu amo saber sobre geometria sagrada e coisas desse tipo”. Katy está inquisitiva e introspectiva. “[Meu mapa astral é] Escorpião triplo. Muito, muito, sensível, mas forte com relação a tudo”, diz ela. Ela também é alguém que sempre teve uma grande curiosidade sobre o mundo e que esteve, como ela coloca, frequentemente “questionando tudo”.

Nascida Katheryn Hudson em Santa Barbara, Califórnia, Katy foi criada com seus dois irmãos em uma casa rigorosa e religiosa. Ela disse à Vogue em 2017 que, uma vez, distribuiu panfletos sobre como encontrar Deus em um show do Marilyn Manson. “Eu vivia em uma bolha”, diz Katy. “Eu estava sempre perguntando ‘por quê?’. Não apenas para ser uma idiota, mas porque eu sempre fui super curiosa”. Quando tinha 16 anos, Katy lançou um álbum gospel cristão e fez uma pequena turnê pelo país – sua primeira experiência no mundo fora da bolha. “Acho que viajar é uma ótima maneira de abrir suas perspectivas”, diz ela. “Você conhece tantas pessoas e é forçado a entrar em tantas situações diferentes que são boas para o seu [crescimento]”.

Foi aos 17 anos que ela sentiu que estava se “desviando”, termo cristão que significa se “afastar de Deus”. Nesse mesmo ano, ela foi descoberta pelo produtor de Alanis Morissette, Glen Ballard, e se mudou para LA, alugando um apartamento em Beverly Hills. “Era muito chique. Eu pensava: ‘Isso é demais’, porque eu vim de uma família de classe baixa pra média. Todas as brigas que os meus pais tinham eram por causa de dinheiro”. Na mesma época, Katy fez uma viagem à área rural britânica para compor, junto de Glen e David Stewart, do Eurythmics, com quem escreveu uma música sobre sexo chamada “Nada Como a Primeira Vez”. “Eu me sentia tão mal, mas, então, eu amava”, diz ela. Ela começou a escrever sobre “tudo o que sentia”, com a intenção de compartilhar uma perspectiva honesta e aberta sobre suas experiências de vida, relacionamentos e saúde mental. “Nem sempre só escrevendo sobre os momentos bons, mas escrevendo sobre os momentos ruins, minhas curiosidades, desilusão, depressão, todas essas coisas”, como ela coloca. Em 2008, Katy lançou seu primeiro álbum em uma gravadora maior, o “One of the Boys”, que gerou o hit loucamente popular – mas, na época, um pouco controverso – “I Kissed a Girl”.

Daí, Katy passou ao lançamento do álbum de sucesso de 2010, “Teenage Dream”, que se tornou o segundo álbum da história (depois de “Bad”, de Michael Jackson) a emplacar 5 músicas em N°1 na Billboard Hot 100. Tão emocionante como tudo aquilo era, Katy diz que, durante esse período, sentiu como se estivesse “pendurada em um foguete, lutando por sua vida”. Ela havia se tornado uma máquina, fazendo turnê durante um ano inteiro, o que foi notoriamente retratado em seu documentário de 2012, Katy Perry: Part of Me. “Eu realmente não tinha qualquer noção de realidade. Eu só estava trabalhando muito. Assim que eu saía de uma turnê, ia direto pro estúdio, blá blá blá”. Mas Katy se orgulha em dizer que dificilmente cancela um show, mesmo quando está doente. “Às vezes eu dou um passo maior do que a perna, mas acabou dando tudo certo”, diz ela descaradamente, em referência ao fato de ter conseguido se apresentar mesmo enquanto lutava contra uma gastroenterite que quase a fez vomitar no palco. Mas Katy está indo mais devagar ultimamente, porque sente que “recebeu o título de ‘maior estrela do pop de todos os tempos’ tantas vezes”. Ela continua: “Eu sei como chamar a atenção de muitas pessoas durante duas horas, mas não sabia que tem que por sal na água quando se cozinha”.

Chamar atenção foi fácil para Katy, tanto com sua voz, quanto com seus figurinos. Quando ela caiu no gosto popular pela primeira vez, com o “One of the Boys”, nós fomos apresentados à uma Bettie Page da era do MySpace/Cobrasnake. Com seus cabelos pretos, franja e propensão à roupas escandalosamente temáticas, Katy era um personagem ambulante da Terra dos Doces. A experimentação com seu estilo continuou através dos álbuns, turnês e videoclipes, conforme ela aparecia como desde uma adolescente geek dos anos 80, à uma rainha egípcia, à uma soldada da Marinha. Assim como no caso de muitas estrelas do pop – especialmente aquelas que encontraram a fama em momentos onde as conversas sobre identidade e justiça social eram menos comuns – certas roupas e penteados foram considerados questionáveis ​​e, desde então, denominado como apropriação cultural. Mas, para crédito de Katy, seu desejo natural de aprender com seus erros permitiu que ela aceitasse essa crítica, com um voto genuíno de se empenhar mais. Em uma entrevista de 2017 ao ativista e escritor DeRay Mckesson para seu podcast, Pod Save The People, Katy admitiu seus erros, particularmente sua performance no American Music Awards de 2013, na qual interpretou uma gueixa; bem como o videoclipe de “This Is How We Do”, que a mostrou usando trancinhas. Durante a conversa, Katy reconheceu seu “privilégio branco” e prometeu fazer melhor. “Eu escutei e ouvi, e não sabia”, disse Katy a Mckesson na época. “E eu nunca vou entender algumas dessas coisas por causa de quem eu sou. Eu nunca vou entender, mas posso me educar, e é isso o que estou tentando fazer ao longo do caminho”.

Hoje, o estilo de Katy, ainda que mais próximo do lado extravagante, está um pouco mais discreto. Seu uniforme diário é o que ela está vestindo hoje – um moletom preto da Adidas, tênis e argolas de ouro; e seu cabelo, curto e loiro, com raízes escuras, escondido debaixo de um boné de beisebol do Mickey Mouse. “Eu estou [usando] um moletom da Madonna/Elton John de segunda à sexta. Mas, se eu for sair à noite, eu troco de roupa”, assegura Katy. Embora Katy tenha testado de tudo quando se trata de cabelo, seu visual atual tem sido a evolução mais impactante. “Mudar o meu cabelo foi definitivamente a maior transformação física que experimentei como mulher”, diz ela. “Quando você não tem cabelo comprido, você realmente não consegue se esconder atrás dele. Tudo está exposto”. Ela está aproveitando o crescimento dos fios, especialmente porque o visual é reminiscente à “Who’s That Girl?”, da Madonna. Mas não deixe as raízes negligenciadas te enganarem, a garota continua em dia com seus detalhes. Na verdade, Katy acabou de atualizar sua casa com uma “sala da beleza”, finalizada com uma estação de lavagem de cabelo, algo que faz com que ela sinta que realmente “conseguiu”.

E, enquanto ela está ostentando um visual mais simples ultimamente, ela ainda tem um afeto por essas peças mais selvagens, como seu sutiã de cupcake, seu vestido de carrossel e sua roupa de soldadinho de brinquedo. “Eu tenho todos eles”, diz Katy. “Eu tenho as minhas fantasias, as fantasias dos meus dançarinos, todos os meus conjuntos de turnê. Minha arma de chantilly”. Ela mantém tudo escondido em um depósito, mas ainda admite ter um certo problema com roupas. “Eu sou uma colecionadora, como gosto de chamar”, diz ela com uma piscada. “Eu não tenho carros na minha garagem, eu só tenho uma garagem cheia de roupas. É assim que sempre foi com todas as diferentes casas em que morei”.

Agora, Katy mora com seu namorado, Orlando Bloom, e, apesar de descrever à si mesma e Orlando como “colecionadores por natureza”, ela ama organização – mas não no estilo “faísca de alegria”, de Marie Kondo. “Meu namorado nem sabe que eu joguei fora a necessaire dele enquanto ele esteve fora”, admite Katy. “Eu disse a ele que comprei uma nova para ele de presente de Natal. Ele disse: ‘Ah, isso tem viajado pelo mundo há 10 anos’ e queria guardá-la em uma gaveta. Eu fiquei, tipo: ‘A hora que você sair, será a hora que esta coisa irá para o lixo'”. Katy atribui suas tendências acumulativas a como o dinheiro era apertado quando estava crescendo. “Você ganha alguma coisa e fica, tipo: ‘Eu nunca vou conseguir isso de novo’ ou ‘Eu nunca vou ter os meios para conseguir isso de novo’. É essa psicologia por trás disso, quando, de repente, você pode simplesmente comprar alguma coisa – é muito louco para o seu cérebro”.

O impulso colecionador de Katy é compensado pelo TOC medicamente diagnosticado, relacionado à organização e limpeza. “Eu tenho muito TOC e não digo isso levianamente”, diz ela. Como a acumulação, ela acha que decorre de algumas das instabilidades de sua infância. “Foi apenas um produto de mim tentando controlar o meu ambiente”, diz ela.

Foi um momento interessante para Katy ao se colocar à mostra para o mundo inteiro observar. A Katy de 34 anos descreve aquele ano como o mais transformador, mentalmente e espiritualmente. Ela havia completado 33 anos apenas alguns meses após o lançamento do Witness, seu álbum “pop com propósito” pós eleições de 2016, que foi recebido com duras críticas, com o jornal Washington Post chamando-o de “meio acordado” e a AllMusic dizendo tê-lo sentido “implacável e um tanto desesperado”. Depois de sofrer uma depressão situacional por causa do resultado, ela participou de um programa de crescimento pessoal, com duração de uma semana, chamado Hoffman Process. O programa, que ela descreve como “10 anos de terapia em uma semana”, permitiu que Katy se curasse. “Eu nunca me senti mais perto de Deus”, diz ela. “Eu nunca senti tanta libertação e alívio”. Ela credita isso a se libertar do “condicionamento do que a sociedade pensa” e a permitir que ela tenha pensamentos melhores e mais gentis sobre si mesma. Ela descreve a tagarelice negativa que assombrou sua mente como uma “sinfonia desafinada, acontecendo a todo momento”. Katy conseguiu silenciar a maior parte da sinfonia. Ela também é uma praticante de longa data da MT, ou Meditação Transcendental, meditação focada em mantras, apresentada pelo diretor David Lynch.

Para uma estrela pop mundialmente famosa, Katy sempre foi bastante aberta sobre sua vida. Para comemorar o lançamento do Witness, em 2017, Katy participou de uma transmissão ao vivo no YouTube, no estilo Big Brother, por quatro dias, permitindo ao mundo vê-la dormir, comer, ir à terapia e conversar com os amigos. Katy está aberta a fazer uma façanha similar novamente. Ela diz que o objetivo do projeto era “humanizar a pessoa que você coloca no pedestal”. Ela acha que, quando se faz isso, “então você se vê neles e, talvez, então, você possa acreditar em si mesmo um pouco mais para ir mais longe”.

Katy também vê um terapeuta regularmente e até participou de terapia em grupo com seus pais. Agora que está mais velha, Katy acolheu as “mudanças dinâmicas” com relação a seus amigos que acontecem em uma certa idade. “Isso talvez tenha acontecido um pouco mais rápido para mim, por ter entrado nesse grande papel matriarcal [de alguém que tinha] os meios para tomar conta de tudo, o que nem sempre era divertido de se fazer”, diz ela. “Eu me sinto muito grata por poder fazer isso, porque é tudo que você sempre quis. Você quer que as crianças sejam capazes de cantar para você as palavras que escreveu e, então, também só comprar uma casa para sua mãe. Ou fazer com que eles não briguem mais por dinheiro. Se você pode remover aquele sentimento, parece que você… Talvez, de alguma forma, você tenha curado alguma parte da sua infância”.

Juntamente com a terapia e a MT, Katy é uma praticante da santa trindade dos cuidados pessoais de LA – caminhada, yoga e massagem com canabidiol. Contudo, ela ainda não conseguiu inibir o mesmo vício que muitos de nós temos: pegar o celular assim que acorda. “Teve épocas em que eu fazia isso e era ótimo, mas não durou”, diz ela. Escondido no fundo de um armário em seu escritório há outro recurso do que poderia ser visto como um aliviador de estresse: um alvo de dardos retratando uma imagem do atual presidente. Katy se recusa a pronunciar o nome dele em voz alta. “Eu tenho essa regra em que só digo ‘45’. Tudo é uma energia. Palavras. Energia profunda”.

O crescimento pessoal que Katy enfrentou devido à idade, terapia, experiência de vida e muito mais, se extende também aos seus relacionamentos com os outros. Com relação à sua vida amorosa, Katy diz que, agora, tem mais limites em seus relacionamentos do que quando era mais nova. Ela consegue enunciar mais suas necessidades e aprecia o fato de que seus relacionamentos deem muito trabalho. “É fácil ser solteira e não ser responsabilizada pelas suas coisas; vivendo a sua impressionante vida de solteira, achando que é a maior, a melhor, fazendo tudo o que quer. Mas, quando você entra em uma parceria, vocês dois estão lá para ensinar lições um ao outro”. Agora, Katy está mais aberta a aprender as lições em seus relacionamentos do que quando “acreditava nas princesas da Disney” com seus vinte e poucos anos. “Eu sou muito pragmática e logística, estou fantasiando menos as coisas. Quero dizer, eu me casei quando tinha 25 anos. Estou com 34. Isso foi há quase 10 anos. Eu pensava, tipo: ‘Uma pessoa para o resto da minha vida’ e não tenho tanta certeza de que essa ideia serve para mim. Eu sou uma pessoa tão diferente de quem eu era”.

Katy tem uma atitude similarmente evoluída e pragmática com relação à sua vida profissional, buscando mais equilíbrio ao afastar-se temporariamente do interminável ciclo álbum-turnê-álbum de um músico em trabalho. Além disso, agora que está dando um tempo de trabalhar em um álbum, ela tem conseguido dedicar toda sua atenção a outros interesses. Há o seu papel como co-apresentadora do American Idol, que ela descreve como uma “maravilha, uma sensação de fazer o bem ao próximo”, para ajudar cantores que querem ingressar na indústria musical. “É incrível poder segurar um bilhete de loteria para a vida de alguém”. Katy também está mentoreando CYN, uma cantora eletro-pop com quem ela assinou em sua gravadora, Unsub, em 2017. “A voz dela me lembra à cantora do The Cardigans [Nina Persson] cantando ‘Lovefool’ – foi para isso que eu assinei com ela”, diz Katy. “Ela só fez alguns videoclipes… Esse é definitivamente o ano dela. Eu estou, basicamente, a mentoreando durante todo o processo, o que é muito animador”.

Katy também canaliza sua energia criativa em sua linha de sapatos homônima, a qual ela diz visar ser uma versão mais acessível de Sophia Webster e Charlotte Olympia. Ela a lançou no ano passado, tendo contratado seu amigo de longa data e primeiro estilista, Johnny Wujek, como diretor criativo. A linha, que incluiu estilos extravagantes, como saltos vermelhos decorados com querubins dourados, botas transparentes com estampa floral e mules de morango com saltos de doces encapsulados, é parceira de varejistas como Macy’s, Nordstrom e QVC, o que Katy diz ter “sempre sido um sonho”, como no filme de Jennifer Lawrence, Joy: O Nome do Sucesso.

Enquanto Katy continua a resolver se vai à escola, ela diz que, nesse meio tempo, estará “aprendendo a como viver com menos”, trabalhando em sua saúde mental e curtindo os frutos do crescimento pessoal que vem com a idade. Além disso, aos 34 anos, ela não tem mais um Saturno retrógrado com que se preocupar. “Eu sou uma pessoa tão diferente de quem eu era [aos meus vinte e poucos anos]”, diz ela antes de voltar atrás. “Uma pessoa não tão diferente – a base sempre esteve lá. Eu sempre fui extremamente sarcástica, sempre a ovelha negra, sempre pensei fora da caixa… [Mas] enquanto eu consumava pensar se as coisas eram assustadoras demais pra mim ou não, agora eu ampliei os meus limites em relação a tudo aquilo. Eu realmente estou mais tolerante e receptiva”. Resumindo, ela diz, com um sorriso: “Realmente é simplesmente os seus 30 anos. Eu os amo tanto”.


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